2 September 2009

Aventuras de Alice no Sítio do Picapau Amarelo

Adriana Peliano

Arte de Guto Lacaz sobre Alice de John Tenniel (1865) e Emília de Andre le Blanc.

A presença de Alice na obra de Monteiro Lobato

Alice chegou ao Brasil pelas mãos do escritor Monteiro Lobato (1882 – 1948). Foi ele quem fez a primeira adaptação de Alice no País das Maravilhas em 1931 com ilustrações de A.L. Bowley e a de Alice no País do Espelho em 1933 com ilustrações de Tenniel. Mas a presença de Alice na obra de Lobato vai mais além, ela visita algumas de suas estórias e interage com os personagens num jogo intertextual de alcance inusitado.

Nas versões originais de Alice, observam-se traços culturais da Inglaterra vitoriana. Monteiro Lobato adapta, transforma e reambienta esses traços para se aproximarem da realidade brasileira de sua época, adequando o texto aos seus leitores. Na introdução de Alice no país das Maravilhas, Lobato afirma ser essa uma tradução dificílima. De fato, por serem línguas diferentes, com significados e significantes próprios, é raro existir uma correspondência ideal que mantenha o sentido do jogo de palavras original. Lobato opta por vezes a não traduzir os trocadilhos e jogos de linguagem de Carroll e substitui as paródias da obra de referência por paródias de textos nacionais reconhecíveis pelo público brasileiro. Ele insere elementos da cultura nacional ao apresentar Alice recitando poemas clássicos da literatura brasileira e ter amigas com os nomes Cléo e Zuleica. Tradutores posteriores adotaram estratégias distintas (ver WESTPHALEN, 2001).

A adaptação das estórias de Alice fazia parte de projeto literário mais amplo de Lobato, personalidade múltipla e complexa, considerado por muitos o autor de literatura infantil brasileiro mais importante de todos os tempos. Ao criticar a tendência da época de copiar as últimas modas parisienses na arte, música e literatura, ele traduziu inúmeras obras inglesas, alemãs e americanas como Peter Pan, irmãos Grimm, Dom Quixote, Robinson Crusoé, Tom Sawyer, Huckleberry Finn, Robin Hood e Viagens de Gulliver. Ao mesmo tempo, a aventura ímpar da leitura dos textos infantis de Lobato permitiu às crianças uma globalização cultural. Seus escritos funcionaram como o hipertexto de hoje, convidando os personagens de contos, fábulas e mitologias a visitarem suas estórias. A vasta obra infantil de Lobato foi mais tarde reunida numa coleção de 17 volumes.

Ele também incursionou pela literatura adulta e foi precursor de idéias interessantes no campo editorial. Foi o primeiro a tratar os livros como produtos de consumo com capas coloridas e atraentes e uma produção gráfica impecável. Inventou a indústria livreira no país e participou da fundação de editoras como a Companhia Editora Nacional e a Brasiliense, criando uma forma inédita de distribuição de livros pelo Brasil.

Com a publicação de Narizinho Arrebitado em 1920, pode-se afirmar que é inaugurada a Literatura Infantil no Brasil e mesmo na América do Sul. Antes, encontravam-se coletâneas de contos de origem européia, de Alberto Pimentel, lançadas no final do século dezenove. Entre estas, Contos da Carochinha (1896), primeira obra de literatura infantil produzida no Brasil, a qual trazia textos portugueses e franceses, reunindo no primeiro volume contos de Perrault, Grimm e Andersen, fábulas, lendas e contos exemplares em tons moralizantes. Mas, desde um viés critico e metalingüístico, Dona Carochinha (uma baratinha contadora de estórias) num dos livros de Lobato alerta: “tenho notado que muitos dos personagens das minhas estórias já vivem aborrecidos de viverem toda vida presos dentro delas. Querem novidade. Falam em correr mundo a fim de se meterem em novas aventuras.” (LOBATO, 1956. p. 11)

Já nas primeiras décadas do século passado, severas críticas da intelectualidade brasileira à produção literária para crianças pediam reformas urgentes para que os livros fossem mais brasileiros e instigantes da inteligência infantil. Lobato promove, então, uma revolução na maneira de escrever para o universo infantil. Uma de suas mudanças é produzir textos com enfoque nesse público. Essa preocupação é tão grande que chega a trocar cartas e realizar encontros com as crianças, sendo muitas dessas reuniões realizadas na primeira biblioteca infantil de São Paulo, que hoje trás seu nome (Biblioteca Infantil Monteiro Lobato).

A obra Narizinho Arrebitado seria mais tarde ampliada dando origem ao clássico Reinações de Narizinho (1931), onde estão reunidas as primeiras histórias do Sítio do Picapau Amarelo. A maioria dos livros infantis de Lobato se ambientava no Sítio do Picapau Amarelo, localizado no interior do Brasil, tendo como personagens a senhora da fazenda, Dona Benta, seus netos, Narizinho e Pedrinho, e a cozinheira, Tia Nastácia. A esses personagens foram integradas entidades criadas ou animadas pela imaginação das crianças na história: a boneca irreverente e debochada Emília, o aristocrático e livresco boneco de sabugo de milho Visconde de Sabugosa, a vaca Mocha, o burro Conselheiro, o porco Rabicó e o rinoceronte Quindim. As aventuras, no entanto, em sua maioria, se passam em outros lugares: num mundo de fantasia inventado pelas crianças ou em estórias contadas por Dona Benta no começo da noite.

O universo do Sítio do Picapau Amarelo
Reinações de Narizinho (1a edição) | litografia de Jean Villin.

O Sítio do Picapau Amarelo é obra fundamental da literatura brasileira publicada inicialmente em 1921 e reeditada em sua forma atual em 1934. Ela ultrapassa as intenções meramente moralistas ou pedagógicas, respeita a inteligência das crianças e valoriza o espírito crítico e independente da infância. “Aprender, para Lobato, é muito mais que reproduzir ou decorar, mas perguntar, duvidar, questionar, discordar, querer viajar, teimar em atravessar fronteiras“. (CABRAL, 2005, p.6).

O Sítio desperta a imaginação da criança e estimula o interesse pelo mundo, ao mesmo tempo em que revela uma busca pela identidade nacional, tornando-se espaço de encontro com outras culturas e identidades. De fonte tendência nacionalista, Lobato criou aventuras com personagens da cultura brasileira, recuperando inclusive costumes da roça e lendas do folclore. Mas não parou por aí: pegou essa “sopa” de personagens brasileiros e os enriqueceu ao “misturá-los” a personagens da literatura universal, da mitologia grega, dos quadrinhos, dos desenhos animados e do cinema. A imaginação se constrói, assim, pela narrativa e em constante diálogo com outras narrativas. É muito interessante observar o contato entre todos os personagens de tradições diversas e os personagens do Sítio, que é de total interatividade: não só conversam e trocam opiniões como questionam suas próprias estórias e reinventam suas aventuras.


Para Todorov, o maravilhoso implica mergulhar num mundo de leis totalmente diferentes das que existem no mundo do leitor comum; por isso, os acontecimentos sobrenaturais que se produzem não são absolutamente inquietantes (apud. SOTERO, 2006. p. 17). Maravilhosas são as narrativas que apresentam personagens tanto reais quanto imaginários, vivendo em universo próprio, com lógica própria, profundamente contrastante com o que chamamos de “realidade”, como nos livros de Alice.

O rompimento das fronteiras entre o real e o maravilhoso é um dos diferenciais dos textos de Lobato de onde sobressai sua característica marcante, que é a presença de personagens tradicionais do mundo fantástico juntamente com personagens criados nas aventuras do Sítio do Pica-pau Amarelo. O maravilhoso lobatiano constrói uma espécie de realidade paralela onde as regras do mundo real são alteradas. O sucesso imediato entre os leitores decorreu de a realidade quotidiana, comum e familiar à criança, ser súbita e naturalmente povoada pelo maravilhoso.

Em sua obra, Carroll desenvolve os episódios do Humpty Dumpty, do Valete de Copas, dos gêmeos Tweedle Dee e Dum e do Leão e o Unicórnio, através de referências a jogos e canções infantis conhecidas (CARROLL e GARDNER, 2002. p. 200); enquanto Lobato concentrou em suas estórias personagens de quase todas as origens e mídias existentes na época. Elas são povoadas por figuras de mitos (Hércules, Medusa, Perseu, Minotauro, etc.), de contos (Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Simbad, Barba Azul, Patinho Feio, etc.), do teatro (O pássaro Azul e O fantasma da ópera), do cinema (Tom Mix, Mickey Mouse e Gato Felix), de personagens folclóricos (Saci, Mula sem cabeça e lobisomem), de personagens históricos (Platão, Marquesa de Santos e Hipócrates), de personalidades brasileiras (Cornélio Pires, o palhaço Eduardo das Neves e Lampião), e do mundo das fábulas (Cigarra e a Formiga, Os animais e a peste, O lobo e o cordeiro, Os dois pombos, A menina do leite). Há ainda citações de obras infantis (As aventuras de Pinóquio, Peter Pan e Alice no país das maravilhas, etc), (ver RIBEIRO, 2005. p. 259).


Só entram no Sítio as personagens aceitas por seus habitantes e uma vez lá se integram à vida das personagens lobatianas. A entrada é franca para os visitantes de diferentes universos ficcionais, que se identificam e convivem no Sítio: um mundo fantástico sem fronteiras de tempo e espaço e entre a realidade e a fantasia. Feito o contato, as idas e vindas entre o mundo imaginário e o mundo real são constantes. Os mundos se interpenetram no mosaico de histórias e personagens que desperta o leitor para outras dimensões através da criatividade e do espírito crítico.

A definição de Jenny é bem adequada ao universo de Lobato: A intertextualidade designa o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando do sentido (apud. CASTELLO BRANCO, 2007. p. 58). No Sítio, todas as narrativas consagradas são revistas e modificadas, adaptadas ao clima e à imaginação das personagens. Assim, a Carochinha é a contadora de histórias, julgadas bolorentas. Há uma crítica à mesmice com que a infância é tratada. As personagens querem “novidade”, “novas aventuras”. É Pedrinho quem diz: “Se Polegar fugiu é que a história está embolorada. Se a história está embolorada, temos de botá-la fora e compor outra. Há muito tempo que ando com esta idéia – fazer todos os personagens fugirem das velhas histórias para virem aqui combinar conosco outras aventuras” (LOBATO, 1956. p. 53).

Para chegar ao maravilhoso Reino das Águas Claras, em Reinações de Narizinho, é necessário atravessar uma gruta, a qual Narizinho jamais tinha visto por ali e que, a princípio, lhe inspira medo. De fato, esse é um portal de passagem semelhante ao de Alice para chegar ao País das Maravilhas e ao outro lado do espelho. Ao mesmo tempo, na 1ª edição de Narizinho Arrebitado (1921), a aventura de Narizinho/Lúcia termina com seu despertar, antes de responder ao pedido de casamento do Príncipe Escamado. O leitor se depara com a revelação de que ‘tudo não passara de um lindo sonho’, final que situa a narrativa no espaço onde “a lógica disciplina a fantasia” (CASTELLO BRANCO, 2007. p. 29). Como a menina sonhava, dissolve-se a presença do maravilhoso dentro do cotidiano.

Na versão definitiva, contudo, diluem-se as fronteiras entre real e maravilhoso e se dá uma fusão entre ambos (idem). Tanto que, em Reinações de Narizinho, a menina volta de sua primeira ida ao Reino das Águas Claras “por uma ventania muito forte, que envolveu a menina e a boneca [Emília], arrastando-as do fundo do oceano para a beira do ribeirãozinho do pomar. Estavam no Sítio de Dona Benta outra vez”, nas palavras de Lobato (1956. p. 20). Sem menção se a menina sonhava ou se o retorno ao quotidiano se deu pelo despertar do sono.

Os personagens do “mundo das maravilhas” nessa obra visitam o sítio do Picapau amarelo em duas ocasiões principais: vão participar de uma grande festa e assistir a uma apresentação de circo preparada pelo pessoal do sitio. Alice também vem ao circo. Mais adiante chega um personagem invisível, Peninha, que todos desconfiam ser Peter Pan, que mostra aos meninos o mapa do “Mundo das Maravilhas” e diz estar ele em toda parte. Pedrinho encontra no mapa o próprio Sítio do Picapau Amarelo, o mar dos piratas, a terra das mil e uma noites, a ilha de Robinson Crusoé, Liliput, a terra do Nunca e o castelo da bela adormecida. O país das maravilhas e a casa da Alice também estão lá, numa verdadeira cartografia intertextual.

Mapa do mundo das maravilhas. | Pena de Papagaio
Illustração: J. U. Campos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1930.

A seguir, o diálogo entre Peninha e Pedrinho:

“– (...) O mundo das maravilhas é velhíssimo. Começou a existir quando nasceu a primeira criança e há de existir enquanto houver um velho sobre a terra.
– É fácil ir lá?
– Facílimo ou impossível. Depende. Para quem possui imaginação, é facílimo”
(Lobato, 1956. p.254).

Mais adiante, são os personagens do Sítio que irão ao mundo dos personagens célebres da cultura universal. Peninha apresenta para Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde o pó de Pirlimpimpim, “o pó mais mágico que as fadas inventaram”, verdadeiro subversor de qualquer concepção racional de espaço e tempo, a ponte de intertextualidades inusitadas. É cheirando o pó que os meninos podem partir para o Mundo das Fábulas. Cheirar o Pó de Pirlimpimpim se assemelha atravessar o espelho ou penetrar na toca do coelho: desterritorialização da consciência, abertura para outras “terras” e “reinos” e diálogo com as figuras da imaginação que habitam em cada um de nós.


Em Memórias da Emília (1936), chega ao sítio o navio Wonderland com Alice e Peter Pan além de várias crianças inglesas para verem um anjinho caído do céu (referência ao livro Viagem ao céu, 1932). De todos, Alice é quem faz perguntas ao anjo sobre a vida no céu. Mais tarde, come os bolinhos da tia Nastácia que, de tão adoráveis, pede-lhe a receita. Alice fica encantada com a vida no sítio. Ao vê-la, tia Nastácia pergunta se a inglesinha fala português e Emília lhe confirma com uma de suas explicações: “Sim, pois Alice já foi traduzida para o português.” Ao mesmo tempo, na introdução de sua adaptação de Alice no Pais das Maravilhas, Lobato anuncia: “as crianças brasileiras vão ler a história de Alice por artes de Narizinho. Tanto insistiu esta menina em vê-la em português (Narizinho ainda não sabe inglês), que não houve remédio, apesar de ser, como dissemos, uma obra intraduzível.” (CARROLL, 1960. p.9)

Alice entre crianças inglesas encontra o anjo.
Memórias da Emília | Ilustração: Belmonte | São Paulo: Companhia Editora Nacional,1936.


A Alice de Belmonte foi inspirada diretamente na Alice de A.L. Bowley (Inglaterra), que serviu de ilustração para a tradução de "Alice no país das Maravilhas" de Monteiro Lobato (1931).

Almirante Cook, Dona Benta, Tia Nastácia, Emília, crianças inglesas e Alice. |
Memórias da Emília | Ilustração: Belmonte | São Paulo: Companhia Editora Nacional,1936.(contracapa)

Alice, Pedrinho e Peter Pan observam Emília com o anjo.
Memórias da Emília.| Ilustração: Paulo Borges. São Paulo: Editora Globo, 2007.

Alice, Emília e tia Nastácia na cozinha do sítio.
Memórias da Emília | Ilustração: Paulo Borges. São Paulo: Editora Globo, 2007.

Em carta dirigida a Godofredo Rangel, Lobato fala de seu projeto de escrever um livro onde as crianças quisessem morar, experimentando o mesmo sentimento vivido por ele em sua infância na leitura de Robinson Crusoé (apud. CASTELLO BRANCO, 2007. p. 33). Para ele, uma obra infantil deveria ter o propósito de transportar a criança para um universo interno ao texto e não demonstrar a realidade adulta sempre atrás da transmissão de preceitos morais.

Se as personagens dos contos de fadas, em Reinações de Narizinho, mostraram-se insatisfeitas por viverem sempre as mesmas aventuras, quando vêm ao Sítio, em O Picapau Amarelo, têm suas experiências modificadas, subvertidas. Os personagens do Mundo das Maravilhas se mudam para um terreno vizinho ao sítio, mas com a condição de Dona Benta de não invadirem o sítio, de não pularem a cerca. Eles ficavam para lá da cerca e ela e os netos ficavam do lado de cá nas velhas terras do sítio. Quando algum personagem do lado de lá quisesse visitá-los, tinha de tocar a campainha da porteira e esperar que o Visconde abrisse. As condições foram aceitas e, passada uma semana, a mudança dos personagens do Mundo da Fábula para as Terras Novas de Dona Benta teve início. O Pequeno Polegar puxou a fila e, logo depois, Branca de Neve com os sete anões, as Princesas Rosa Branca e Rosa Vermelha, o Príncipe Codadade, com Aladim, a Sherazade, os gênios e o pessoal todo das ‘Mil e Uma Noites’. A seguir, a Menina da Capinha Vermelha, a Gata Borralheira, Peter Pan e os Meninos Perdidos da ‘Terra do Nunca’ e o Capitão Gancho com o crocodilo atrás e os piratas; e o Senhor de La Fontaine em companhia de Esopo e de todas as suas fábulas; e Barba Azul com o facão de matar mulheres; e o Barão de Munchausen; e os personagens todos dos contos de Andersen e Grimm. Veio também D. Quixote junto de Sancho Pança, “Mas não vinham a passeio, não; vinham com armas e bagagens, com os castelo e palácios para morar ali toda vida” (LOBATO, 1968. p.22). Por fim, Alice “com o bando todo – Twidledum, o Gato Careteiro, o Coelho Branco, a tartaruga...” (LOBATO, 1968. p.24).

No conto As fadas, do livro Fábulas (LOBATO, 1955. p. 250) , as crianças dormem enquanto uma festa do mundo das fábulas acontece no Sítio. o banquete é oferecida pela Branca de Neve para o Gato de Botas, que cria uma grande confusão tentando devorar o próprio Mickey! Mas as crianças não ficam sabendo de nada. É Narizinho que comenta no final da história como está triste pensando que os personagens encantados se esqueceram do Sítio. A história sugere que muitas aventuras como essa podem ter acontecido sem que as crianças soubessem, criando um suspense mágico e abrindo possibilidades infinitas na imaginação. Alice também vai ao Sítio nessa festa.

Em adaptação mais recente da obra de Monteiro Lobato (POPPOVIC,1979. s/n), os personagens do Sitio do Picapau Amarelo vão visitar várias estórias, entre elas Alice no Pais das Maravilhas. Emília, Visconde, Pedrinho e Narizinho seguem as pistas de Alice e recontam suas aventuras adaptadas ao olhar dos personagens do sitio que comentam e interagem com a estória.

Beatriz Berman.

Já em A chave do tamanho (1942), os personagens do sitio são confrontados com a realidade da guerra, “chega ao Sítio o carteiro trazendo jornais onde Pedrinho lê várias notícias sobre a guerra: ‘– Novo bombardeio em Londres, vovó. (...) Inúmeros incêndios. Mortos à beça’” (LOBATO, 2003, p.8). E Emília, cheia de iniciativa, utiliza o “super pó” e consegue chegar à Casa das Chaves. Lá estavam todas as chaves que “regulam e graduam todas as coisas do mundo” (LOBATO, 2003. p.9). Nenhuma delas, entretanto, possuía a indicação de sua utilidade. Entre as chaves disponíveis, Emilia escolhe uma ao acaso, que não era a chave da guerra: mas A Chave do Tamanho que, de imediato, reduziu toda a humanidade ao tamanho dos insetos. Ela, Emília, passa a ter 1 cm de altura, segundo a conta que faz. Essa alteração de tamanho se remete à Alice no País das Maravilhas, alusão confirmada por Emília no livro: “Aconteceu-me o que às vezes acontecia à Alice no País das Maravilhas. Ora ficava enorme a ponto de não caber em casas, ora ficava do tamanho dum mosquito. Eu fiquei pequenininha” (LOBATO, 2003. p.11). A diferença é que toda a humanidade encolhe como Emília e se cria a partir daí uma sociedade com novas regras em critica direta à conjuntura mundial do momento.

Por amor ao Brasil e à sua cultura, Lobato criou uma literatura infantil onde crianças brasileiras ficcionais e personagens do folclore convivem em igualdade com os personagens mais célebres da cultura universal, isto é, em relação de profunda amizade, afetividade e cumplicidade, e sem a reverência paralisante que dificulta novas formas de ser, pensar e criar. O projeto de Lobato, pode-se dizer, era fazer das crianças leitoras criticas do mundo. Construiu, assim, uma literatura infantil brasileiríssima sem abrir mão das preciosidades de outras fronteiras: ao contrário, apreciou o que havia de melhor nas culturas estrangeiras e trouxe para a sua literatura. E participou da construção do país, seguindo seu famoso jargão: “Um país se faz com homens e livros.”

Alice e Emília. | Memórias da Emília | Ilustração: Belmonte | São Paulo: Companhia Editora Nacional,1936.


AZEVEDO, Carmem Lúcia; CAMARGOS, Márcia Mascarenhas e SACCHETTA, Vladimir. Monteiro Lobato: Furacão na botocúndia. São Paulo: Editora Senac, 1997.
CABRAL, Gladir da Silva.
Imaginação e construção da identidade na obra de Monteiro Lobato. I Seminário Educação, Imaginação e as Linguagens Artístico-Culturais, 5 a 7 de setembro de 2005.
CARROLL, Lewis. GARDNER, Martin.
ALICE: Edição Comentada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
CARROLL, Lewis.
Alice no País das Maravilhas. Tradução e adaptação: Monteiro Lobato. Editora brasiliense, 1960. 9a. ed.
CARROLL, Lewis.
Alice no País do Espelho. Tradução e adaptação: Monteiro Lobato. São Paulo: editora brasiliense, 1961. 3a. ed.
CASTELLO BRANCO, Thatty de Aguiar.
O maravilhoso e o fantástico na literatura infantil de Monteiro Lobato. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Letras, 2007. Dissertação (mestrado).
LOBATO, Monteiro. A Chave do Tamanho. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
LOBATO, Monteiro. Fábulas. São Paulo: Editora Brasiliense, 1955.
LOBATO, Monteiro.
Memórias da Emília. São Paulo: Círculo do livro, 1984.
LOBATO, Monteiro.
O Picapau Amarelo. São Paulo: editora brasiliense, 1968. 13a. ed.
LOBATO, Monteiro.
Reinações de Narizinho. São Paulo: editora brasiliense, 1956. 6a. ed.
POPPOVIC, Pedro Paulo. (ed.)
Livro de Histórias: baseado na obra de Monteiro Lobato. Rio de Janeiro: Rio Gráfica Editora, 1979.
RIBEIRO, Maria Augusta Hermengarda Wurthmann. G
uia de leitura de Reinações de Narizinho. PROGRAD/UNESP/Reitoria – Núcleo de Ensino do Campus de Rio Claro, 2005. Pesquisa de iniciação científica.
SOTERO, Alessandra Garrido.
Contos, Fábulas, Mitos e Le Avventure di Pinocchio. Caderno Seminal Digital – Vol. 6 – Nº 6 – (Jul/Dez-2006). Rio de Janeiro: Dialogarts, 2006. pp. 7-33.
VIEIRA, Adriana Silene. “
Um inglês no sitio de Dona Benta” Estudo da apropriação de Peter Pan na obra infantil lobatiana. Campinas: Universidade Estadual de Campinas - Instituto de estudos da Linguagem: 1998. Dissertação (mestrado).
WESTPHALEN, Flávia et al.
Os tradutores de Alice e seus propósitos. In: Cadernos de Tradução. Florianópolis: NUT, 2001, v. 2, n. 8, p. 121-144

Alice encontra Emília em Ilustração de Jô Oliveira.






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“Always in search of curious objects, broken toys, bits of things and traces of stories, Adriana Peliano stitches together monsters, desires and fairy tales. Her collages and assemblages are magical and multiple inventories, where logic is reinvented with new meanings and narratives, creating language games and dream labyrinths. Everything is transformed to tell new stories that dislocate our way of seeing, inviting the marvellous to visit our world.” “Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de coisas e rastros de estórias, Adriana Peliano costura monstros, desejos e contos de fadas. Suas colagens e assemblagens são inventários mágicos e múltiplos, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.”